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As taxas e as taxinhas

por LFP, em 12.11.14

Imagem roubada aqui ao Vitor Cunha 

 

Isto pode parecer de somenos importância, mas não é.

 

Não, não se trata do valor. Não, não se trata de ser ou não uma forma de reduzir os incómodos causados aos lisboetas pelo turismo. Nada disso.

 

Os problemas que emergem da “Taxa Costa” são de outra ordem. Vejamos:

 

a)   Sob o ponto de vista político, o PS vem apresentando António Costa como sob uma capa messiânica, com poderes muito para além dos de um comum mortal (o dobro da distância se o mortal for incomum, como, por exemplo, o António José Seguro). O antigo nº. 2 de José Sócrates pertence, aparentemente, a outra estirpe de políticos, daqueles que já não existem, com a magnitude moral dos notáveis que, a 4 de Julho de 1776, rubricaram a Declaração de Independência das 13 colónias inglesas da América do Norte. Ele vai repor as injustiças causadas pela Troika e pelos seus vassalos neoliberais do governo PSD/CDS. Ele vai repor as pensões. Ele vai diminuir os impostos. Ele vai criar emprego. Ele vai melhorar os serviços públicos. Ele vai fazer e trazer investimento. E, melhor ainda, tudo isto vai mesmo acontecer porque Ele (imbuído do espírito messiânico já escrevo “ele” com maiúscula se se tratar de António Costa), dizia eu que Ele não mente!

 

 b)   Isto seria o melhor dos mundos possíveis. Não correremos, portanto, o risco de que um qualquer cidadão que a 4 de Junho de 2013 afirma que não irá aplicar nenhumas taxas sobre o turismo, e que no orçamento municipal de 2015 proponha justamente o oposto, chegue alguma vez a S. Bento. Até porque, como referimos em a), Ele não mente. Dir-me-ão “Ah, e tal, ó Luís, e estes que tu apoias não fizeram o mesmo?” Fizeram pois! Mas não são O Messias. São políticos. E os políticos defraudam as expectativas dos cidadãos desprevenidos. Fazem promessas que não vão cumprir, quer por inocência, quer por falta de coragem, quer para ganhar votos. Eu sei disso, e quem ainda não o percebeu é tolo. A ideia deve ser sempre que, entre mortos e feridos, se leve esta nau Catrineta a um porto onde, futuramente, não se tenha de pagar tantos erros deste presente.

 

c)   Vejamos então a aplicabilidade da Taxa. Cada cidadão não-residente em Lisboa passará a pagar, só pelo usufruto do equipamento municipal que é o Aeroporto da Portela, um singelo eurito. Isto mesmo que se desloque logo de seguida para o seu local de residência, seja ele Sintra, Setúbal ou Sobral-de-Monte-Agraço. E eu refiro “equipamento municipal” não por lapso de escrita. Não, não. Ao ser cobrada a dita taxa a um qualquer cidadão, nacional ou estrangeiro, que aterre na Portela, mesmo que o seu destino ou objectivo não seja o turismo na capital, está, de facto a pagar pelo usufruto de um equipamento que, por mero acaso (e um pouco de bom senso… ná, se calhar foi mesmo só mero acaso), ainda está na Portela, e não na Ota ou em Rio Frio.

 

Mas o pior é o indignómetro socialista. Meus amigos, então vocês sentem-se indignados por haver críticas à Taxa Costa? Vocês acreditam, sinceramente, que o facto de ser uma taxa com o selo de qualidade PS a torna mais ou menos justa? A torna diferente, mais fresca e fofa no Verão e aconchegante no Inverno? A sério?

 

É claro que exemplos disso não faltam nos últimos anos. Por exemplo, recordemos 1992, quando o governo do Cavaco subiu em 50$00 o valor da portagem da ponte, a revolta que houve (encabeçada pelos camaradas camionistas e traficantes irmãos Pinto que, quem sabe, ainda não vão partilhar momentos mais íntimos numa cela com o então ministro da administração interna, Dias Loureiro), lembram-se? E quando o governo seguinte, do António Guterres, aumentou a portagem em mais 50$00 no ano de 1996, e a indexou à inflação? Que protestos houve? Bloqueios? Buzinões? Cargas policiais? Nada disso, tudo na paz do senhor, porque esta era uma taxa-boa-de-esquerda, empregue para “fazer cenas”, por oposição à taxa-má-de-direita do Cavaco, que servia para entregar “aos interesses instalados”. Agora pagamos 330$00 (1,65 €) e não bufamos.

 

E podia falar das propinas no ensino superior, nos exames nacionais, etc. Tudo na dicotomia bom-de-esquerda, mau-de-direita.

 

A sério, parem lá com essas coisas, sejam um bocadinho mais humildes. Não estejam já a pensar que as eleições de 2015 já estão no papo, e que são apenas uma mera formalidade para o vosso regresso ao poder. Não são, e não fiquem azedos por haver quem o diga.

 

No essencial, as coisas não vão ser diferentes do que estão agora. Vamos continuar a ter de pagar a falência para onde nos conduziram com o dinheiro dos nossos impostos porque vão ter ainda menos coragem que o PSD/CDS para fazer a reforma do estado. E terão menos coragem porque o grosso da administração pública é eleitor do PS. E porque sabem que qualquer tentativa de fazer as coisas de forma diferente vai esbater no Palácio Ratton.

 

Olha uma ideia: querem ser messiânicos? Querem mesmo fazer as coisas de maneira diferente? Sentem-se à mesa com propostas sobre o que correu mal, e melhorem o que correu bem. Assim é que vão mesmo ser diferentes. Não é com taxas e taxinhas nem arrogâncias baratinhas.

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