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O que quer António Costa?

por LFP, em 14.10.15

 

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Recuemos a julho de 2014. António Costa, então Presidente da Câmara de Lisboa, tinha acabado de desafiar António José Seguro pela liderança do PS. Já com primárias marcadas, justifica em Valongo esse mesmo desafio: "Eu sei que muitas vezes se diz que por um se ganha e por um se perde. É verdade, no futebol é assim. Na política não é assim. É que a diferença faz muita diferença, na política. É que quem ganha por poucochinho é capaz de poucochinho. E o que nós temos de fazer não é poucochinho. O que nós temos de fazer é uma grande mudança".

 

Esta declaração era de alguém que aspirava uma liderança forte para o ainda maior partido da oposição mas que, simultaneamente, colocava a fasquia muito elevada perante todos os socialistas e todo o eleitorado. O país, cansado de um programa de ajustamento fortíssimo parecia estar aí à mão de semear depositando esperanças messiânicas em alguém que sempre soube cultivar uma imagem de rigor e sobriedade, quer nos cargos que exerceu, quer no seu papel de comentador televisivo. Costa jogou forte e jogou tudo pois tinha a certeza que a vitória nas legislativas não poderia fugir ao PS e que a imagem que tinha de si próprio era suficiente para garantir uma maioria absoluta.

 

Infelizmente “estas coisas” acontecem. E “estas coisas” são os primeiros (frágeis) indícios de uma recuperação económica, por um lado, e a necessidade de Costa começar a elaborar uma ideia para o país, não no confortável papel de comentador, mas sim como candidato a primeiro-ministro. E, azar dos azares, ter que ser confrontado com o contraditório quer de adversários políticos, quer da comunicação social. E todos vimos a teia de contradições em que se enrolou.

 

Sejamos claros: Costa apostou tudo na mais-valia que ele pensava que tinha enquanto figura de primeiro-ministro. Não foi o seu programa o elemento diferenciador, foi a sua imagem. Era isso que o separava de Seguro. Falhou! Pior, foi a exatamente sua imagem que fez com que o PS perdesse aquilo que alguém chamou de “eleições mais fáceis de sempre”. Foi António Costa que dispersou os votos de quem estava descontente com a coligação, e foi ele que ajudou o BE de Catarina Martins a ter o resultado histórico que teve. Foi a sua imagem de amadorismo e incompetência, apenas. Foi ele, mais que o PS, o grande derrotado de dia 4 de outubro.

 

Claro que, numa realidade paralela onde o político António Costa tivesse espinha dorsal, a primeira coisa que teria feito era demitir-se do cargo de Secretário-Geral do PS. Mas não. Costa, quando começou a intuir que, afinal, a vitória não era “favas contadas”, estabeleceu um novo plano para assegurar a sua sobrevivência política (pois é disso que, doravante, ele vai tratar). Caso a coligação não obtivesse a maioria absoluta dos deputados, como não obteve, estava preparada a encenação.

 

Ponhamos as coisas no seu lugar. Jerónimo e Catarina, que passaram toda a campanha a dizer que o programa do PS era de direita não tiveram um desvio ideológico repentino. Nisto há um interesse, e esse interesse é puramente táctico. Para eles o PS é um naco apetitoso de eleitorado e, caso se concretize a tal “Frente de Esquerda” composta por um governo exclusivamente socialista e com apoio parlamentar das três bancadas (quatro, se quisermos incluir os Verdes), vão manietar em conjunto o PS fragilizado por uma liderança altamente desacreditada fora e dentro do partido. Da minha parte, tudo bem, se isso não implicar levar o país a um quarto resgate. Enquanto, como cantava o Chico Buarque, “está bonita a festa, pá”, o meu bolso vai agradecendo. Na altura de pagar é que são elas. E eu não tenho de pagar a recusa do Dr. António Costa em perceber que estar morto é o contrário de estar vivo.

 

Ignoremos os desvios de direita de BE e CDU, ignoremos que eles andaram a enganar os eleitores quando diziam que queriam a saída do Euro, que queriam uma renegociação unilateral da dívida, que recusavam as metas do Tratado Orçamental, a saída da NATO, a saída da UE ou a nacionalização imediata da banca e de sectores estratégicos. Ignoremos tudo isso, pois enganar os eleitores é algo apenas reservado à direita, não é coisa que “gente séria” da CDU ou “de pé” do BE faça. Façamos fé na sua boa vontade em se entender com um PS e procurar uma solução de esquerda para o País. E entre eles? Quando e onde, nos últimos 15 anos, CDU e BE se juntaram, se coligaram, para defender os diversos valores que partilham? Não conheço nenhum caso. Em lugar algum. Vejo-os sempre mais dispostos a fazer acordos com o PS ou até com PSD e CDS que entre si. Vai ser uma coligação com uma dinâmica engraçada de seguir.

 

Nesta sequência façamos agora um exercício adicional de ignorância. Ignoremos também que uns 15% dos deputados do PS não querem a tal Frente de Esquerda. Façamos de conta que Sérgio Sousa Pinto e Ascenso Simões, só para citar dois nomes que até eram muito próximos de Costa, vão cumprir a disciplina de voto e viabilizar o governo PS com apoio parlamentar à esquerda. Recordemo-nos que o PS em conjunto com o BE ou a CDU isoladamente tem sempre menos deputados que a coligação, logo nem sequer é permitida a abstenção de qualquer um dos grupos parlamentares da Frente de Esquerda para viabilizar as medidas do governo. Têm todas, necessariamente, que votar a favor.

 

Como irá um secretário-geral que já tem dificuldades em lidar com o seu próprio grupo parlamentar, coordenar-se com os grupos parlamentares de PCP, BE e Verdes durante uma legislatura inteira? Especialmente se eles tiverem a faca e o queijo na mão para derrubar o governo quando lhes parecer propício? Boa sorte a tentar domá-los..

 

É este o projeto governativo estável que António Costa tem para apresentar ao Presidente da República? Imagino a gritaria que haveria se fossem os partidos do centro-direita a apresentar tal solução. Foi por isto que o PS nunca quis esforçar-se por encontrar um entendimento com a coligação? Não, não foi por nada disto.

 

Respondendo à pergunta inicial, Costa apenas quer ser primeiro-ministro e salvar a pele política a todo o custo, nem que para isso tenha que arrastar o país inteiro com ele. Pois que faça bom proveito. Mas tenhamos sempre em mente que, segundo a lógica do ungido António Costa, tal como quem ganha por poucochinho é capaz de poucochinho, também quem perde claramente não será capaz de coisa alguma.

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